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 [Resenha] The King of Limbs (2011)

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MensagemAssunto: [Resenha] The King of Limbs (2011)   Qua Mar 02, 2011 12:08 am

Tomei a liberdade de escrever sobre o disco, estou jogando aqui no fórum e no meu blog.



Radiohead

Disco: The King Of Limbs (2011)

Por: João Leno Lima




Para muitos a arte nos dias de hoje não passa de um cadáver agonizando em meio ao caos da vida contemporânea. A banalização da vida, a violência, a degradação do meio ambiente, os jogos da propaganda consumista, a falta de uma certa espiritualidade, reúne elementos que tornam o ato de viver difícil, tenso, a não ser que você tenha em mente o desprezo pelo ser humano, pela natureza e abrace uma vida distante das questões que afligem nosso tempo.

Nesse sentido, poucos artistas, ainda comovem e causam algum tipo de estrondo e alvoroço nos tempos onde o consumo (de musica por exemplo) é imediato e descartável.

Quando surgiram em 1993 com seu debut (Pablo Honey) os Radiohead eram vistos como mais um grupo de grunge influenciados por nirvana, dois anos depois, fizeram um dos grande discos do rock inglês dos anos 90, o The Bends e se consagraria como o grupo a ser seguido no fundamental Ok Computer (1997).

Mas, a partir daí, O Radiohead reescreveu sua história e seguiu passos que dividiram muitos fãs, para não dizer que alguns se sentiram órfãos.

a verdade é que a banda dos amigos Thom Yorke, Ed, Phil e os irmãos Greenwood sempre foi inquieta e sempre dialogou com seu tempo.

Ok Computer captava um momento importante de avanço tecnológico, futurismo, o homem moderno de finais de século, sua condição como ser e em sociedade.

Kid A/Amnesiac (2000/2001) já captavam o inicio do novo milênio, as tensões da modernidade e o homem no centro desse fato.

Musicalmente os discos gêmeos estavam soterrados pela influência do free jazz de Alice Coltrane, pelo jazz cabeçudo de Charles Mingus e Miles Davis. Além da referencia ao krautrock de Can, faust e o os artistas da gravadora Warp, ainda que essa influência seja dita pelos quatro cantos como fundamental, os discos estão longe de serem discos eletrônicos, é um apanhado de influências que tornam discos herméticos e inclassificáveis.

Hail to the thief (2003) já ressoava com o abalo de um 11 de setembro que mudou a cara do mundo, rechaçou crises entre o oriente e o império americano, trouxe tensão e se tornou mais visível as máscaras do capitalismo. Tudo isso é captado de maneira metafórica no disco, considerado por muitos o mais "perdido" musicalmente, tese que os próprios membros da banda realçam por ele ter sido gravado muito apressadamente.

Mas musicalmente Hail to the thief reúne canções e coesa de difícil acesso, peças que foram retrabalhadas no extenso arsenal de sons da turma, um disco influenciado pela leitura de "Capitalismo e esquizofrenia" e "1984". Yorke nesse disco é como nós, mais um número no processo e aceita isso numa passividade agonizante.

Depois a banda encerra seu contrato com a EMI e lança-se independente. Captando as tensões num ciberespaço entre downloads e gravadoras, Thom & Cia são so primeiros da turma dos “grandes” a tratar o tema e não só isso, capta o momento delicado que a arte se encontra. In Rainbows (2007) poderia ser comprado com o preço que o comprador quisesse pagar ou até de graça, no geral, você refletiva o “valor” que a arte do grupo tinha pra você., forçando a pensar: Qual a o valor da arte nos tempos atuais?.

O estrondo foi grande numa mídia sempre sedenta por polêmicas e discussões. Musicalmente, o disco é nos ouvidos mais desavisados o mais acessível em tempos, suas canções parece ter sido esculpidas de tal maneira que não soam com nada parecido nos dias de hoje. Para chegar nesse fato a banda se atormentou e quase desiste e encerra suas atividades.
in Rainbows foi um marco estético, comercial, crítica e público, se renderam.

Pra onde ir?

Nos tempos de downloads intensos, motins virtuais, wikiliers, gravadoras afundando, músicas e bandas de plástico, um mundo desencantado bate a nossa porta como um vento e bagunça nossa alma.

Qual o papel da arte nisso tudo?.

Qual o sentido de fazer música?

É nesse sentido que a banda nos apresenta seu oitavo filho.



The King Of Limbs.

A criação de um sonho cantado como se real fosse e vivido em pouco mais de 37 minutos de um passeio por um lugar que nem lembramos mais. Nós mesmos.

A experiência de ouvir um Radiohead requer paciência, estar aberto a outras soluções para uma canção, outros andamentos, por vezes canções sem refrão, dissonância e quebras rítmicas pontuam uma turma inquieta e que mesmo com mais de 20 anos na estrada não se rende.

E sim, The King of limbs reúne uma banda disposta ao desequilíbrio.

Não, não é uma volta ao universo de Kid A/Amnesiac.
Nem ao estruturalismo que agrada os fãs de um rock mais escultural como o de Ok Computer. Também não é um novo In Rainbows é simplesmente uma obra única, fechada em si, de uma banda que inventou seu universo e gira sobre ele.



"Bloom" abre krautrokanamente. O piano elétrico (que ressoa a canção inteira) flutua (lembrando os primeiros discos dos alemães do Popol Vuh) e envolve os ouvidos, alguns segundos de loops de batidas até surgir um Phil selway alucinado (assim como em Morning Bell/Dollars and cents/Mixomatosis/15 step) num outro andamento, ainda por cima, o baixo do Colin em poucas notas pontua a entrada de thom (colin parece que gravou o baixo de um outro canal em marte) e permeia um thom em vocal chapante. Uma orquestração à la Alice coltrane ergue o clima, a atmosfera de um florescimento lento. "Abra sua boca" canta yorke, parecendo sobrevoar um descampado, possuído pelos mais intensos sonhos.

O free jazz continua em MorningMrMagpie. The king of limbs nos apresenta uma banda sinistra, A guitarra de jonny greenwood nunca antes tocada assim e de forma abafada entrecorta a tensão de uma bateria num compasso impenetrável, Phil realmente está na sua melhor forma. "Você tem muita coragem pra vir até aqui Você tem muita coragem pra vir até aqui" dispara Yorke entre setas, descompassos, tensão raivosa e lisérgica, a canção corre, free jazz /krautrock, tudo guiado pelo intenso frotman que não descansa. Pelo meio um violão bêbado dialoga num esquina solitária da canção. Tudo parece que vai se desprender do chão e colidir com alguma parede invisível mas estranhamente a canção se mantem, algo a faz se unir, um milagre jazz...

"Você roubou toda a minha magia E levou minha melodia".

Violão, baixo, bateria marciana e um lindo vocal permeia a bela LittleByLittle. Canção que Jonny quase que solfeja as notas, enquanto Colin destila sua linha passeando por dentro da melodia ondulante e cheia de variantes com um Phil linear como se estivesse em outra freqüência.

"Obrigação, Complicação, Rotinas e horários, Droga e te mata Te mata"

Dispara um yorke confessional, que como num sonho, não quer acordar agora, o mundo de hoje exige mais do que viver, exige e te suga a alma.

A instrumental Feral (selvagem) parece um banda que não consegue encontrar sua razão. A melodia parece presa, Yorke tenta cantar algo mais tudo é abafado, incompleto, não há sentimento, a selvageria dos loops, o baixo do Colin que impregna, causa incomodação, aflição, thom parece um Cyborg se debatendo no meio de uma floresta.



LotusFlower nos apresenta para a segunda parte do disco. Seqüenciadores comandados por Jonny Greenwood, teclados gelados e um baixo sedutor (assim como em Nude e All i Need) realçam a cristalização de um vocal que parece que engoliu uma um luz desconhecida que da vida num falsete épico.

"Há um espaço vazio no meu coração onde cresce o mato
E agora eu vou te libertar, te libertar"

A bateria sempre incomum de Phil e os loops no vocal de Thomas evidencia uma das canções onde os Radiohead mais estão a vontade nesse disco. Recriando dentro da própria sonoridade que eles inventaram pra si, o cunho de originalidade que lhes é caro.

Desde de Amnesiac o Radiohead vem trabalhando peças minimalistas ao piano. Canções como pirâmide Song, sail to the Moon, Videotape, mostram um Yorke dissonante ao piano, sempre buscando fugir dos velhos clichês de canções assim, sempre com compassos improváveis e pouco refrão, a influência do jazz é visível mas toda as belezas anteriores , as tensões, os medos, a angustia de não-ser ,deságuam na peça de rara poética de "Codex".

No ambiente frio de Lotus, Yorke é transportado (assim assim como Pull/revolving door e You and army) para uma contemplação imensurável. Ele mergulha numa nuvem, descansa, deita sobre as folhas sem machuca-las e ouve os compassos mais íntimos da natureza.

"Deslize suas mãos
Salte no final
As águas são límpidas
E inocentes
As águas são límpidas
E inocentes"

Canta thom querendo que nós façamos parte da experiência. Quase como de onde o ponto que paramos em Pirâmide Song (onde não havia mais nada a temer nem a duvidar) somos tocados por uma canção irretocável, uma orquestra comandada por Jonny Greenwood, pontua a beleza e a sensibilidade em forma de canção. Os rapazes de Oxford, donos de canções como Boolet Prof. I Was, Street espirit., No surprises, Desappear Completely, Scatterbrain, assinam mais um ato sublime no imaginário da poesia moderna. E tudo encerra-se entre pássaros, caindo a tarde ou chegando o outono em "GiveUpTheGhost"

O verso:
"Não me assombre, não me machuque
Não me assombre, não me machuque"

Repete-se pela canção inteira, cantando um yorke sabendo que logo acordará, logo terá que lidar com as razões que ditam as regras desse mundo,
logo seu sonho terá que da lugar ao que chamam de "realidade". O sentimento de não fazer parte de um todo mais uma vez eclipsia um artista inquieto, uma eterna busca quase espiritual por uma zona que não seja de conforto e sim de consolação, uma das bases e buscas de toda a poesia desse trovador solitário em todos os discos da banda. Yorke lagrima e nos prepara para a separação onírica em "Separator".

Encerrar bem seus discos sempre foi uma especialidade dos Radiohead.
Parece que a última canção sempre trouxe uma beleza a mais, um delírio e uma certeza que reafirma toda a obra.

E não foi diferente com Separator.

A banda toda retorna, Jonny Greewood experimenta tensões na guitarra, Enquanto Phil passeia numa andamentos só seu, seqüenciadores distorcem a voz de Yorke que parece estar em outra freqüência, distante, num conforto de alguém que viveu um sonho bom e vive a memória cheia de saudades sublimes que o fazem voltar sempre que quiser. Pelo caminho um solinho na guitarra do Jonny que depois cresce, tornando-se as asas invisível de Thomas, um Thomas de rosto afagado pelos ventos, que acordou de um universo só seus mas o que antes era um sentimento de desconsolo crônico agora pousa na sua retina a máxima que o sentir é eterno.

A arte está aí para isso, te fazer sentir de novo, te fazer acreditar que um sonho é possível num mundo onde o desalento recria a certeza da falta de encanto nas coisas vividas. O arranjo de guitarra no final é uma dos mais belos da discografia da banda e encerra em meio ao apelo do Thomas-poeta para acorda-ló da nossa própria realidade. Uma das grandes obras de artes da obra do grupo desde sempre.

"É como se eu estivesse caindo da cama
Depois de um sonho longo e fatigante
Finalmente me livrei do peso que carregava

Quando eu pedir de novo
Quando eu pedir de novo
Me acorde
Me acorde"

The king Of limbs é um passeio solitário pelo sonho de um poeta.
O sonho de um mundo como ele queria que fosse, um sonho de alguém que acredita nas relações entre homem e natureza, alguém que ainda sente o prazer irreparável de observar um flor, apreciar a beleza de um pássaro ou o correr de um rio, algo que perdemos em tempos de internet, relações banalizadas, amores descartáveis, arte que não comove apenas preenche o intervalo do almoço ou serve para nao causar tédio.

Um mundo que desbota aos poucos e onde fazer arte que não seja apenas por mera arte, requer paciência, trabalho, requer certeza dentro de si que de alguma forma, uma obra terá alguma razão na vida de alguém.

Musicalmente o oitavo disco dos Radiohead abraça numa parte o Free Jazz de Alice Coltrane e o Krautrock do Faust, um passo a frente nos experiências anteriores, numa banda segura para não seguir fórmulas. Na segunda parte, o velho e inominável Radiohead, com sua dissonância, orquestrações e beleza, alguns loops e samples apenas como complemente, ao contrário do que andam afirmando, o disco tem pouca coisa de eletrônica, além de um fluidez e fragmentação orgânica que pode soar eletrônica em alguns ouvidos.

O Radiohead segue compondo obras primas e nos comove com sua sublimação absoluta.

O poder da sutileza em estado de graça dialogando com a natureza mais elementar.

Parabéns a banda por captar nosso tempo assim e nos entregar mais um documento.

Canções que serão milenares tanto quanto o carvalho que inspirou o título do disco.



O VERDADEIRO REINADO DA ARTE EM ESTADO BRUTO.





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