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 Radiohead, Caridade e Liberalismo

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MensagemAssunto: Radiohead, Caridade e Liberalismo   Qui Mar 29, 2012 5:21 pm

Texto de um colega de faculdade (FEA-USP), sobre a venda "exótica" do In Rainbows.

blog dele: http://www.depositode.blogspot.com.br





Radiohead, Caridade e Liberalismo

A banda inglesa Radiohead anunciou que irá vender seu novo disco de uma forma, digamos, pouco convencional. Quem estiver interessado no novo trabalho deverá entrar no site da banda e baixar à vontade as músicas. Logo em seguida o internauta será “convidado” a pagar pelos downloads o valor que desejar (incluindo zero!).

Não sei se a iniciativa dará certo ou errado em termos de lucratividade, mas causou uma verdadeira comoção entre aqueles que bradam pelo fim das grandes gravadoras, contra a cultura como mercadoria e outras coisas do tipo. Alguns socialistas/comunistas tomaram a atitude como uma espécie de bandeira a ser seguida, uma forma de revolta “anticapitalista”, anti-mercado. Visão parecida também ocorre em relação a cooperativas, caridade, ONGs e “trabalhos voluntários”. Todos esses arranjos e comportamentos são vistos, em menor ou maior grau, dependendo do socialista em questão, como anti-mercado, anticapitalista. Nunca se sabe muito bem o que um socialista quer dizer por “capitalista”; são tantas as definições, cada um usa uma... capitalismo acabou se tornando a palavra que representa “aquilo que é ruim”, assim como burguês para os marxistas ou neoliberal para a dita esquerda nacional.

Se tais comportamentos e arranjos podem ser considerados anticapitalistas por alguma definição bem restrita que se use por aí, certamente essas ações não são antiliberais e nem anti-mercado. Dado que o Radiohead tem direito de propriedade sobre sua produção ou pelo menos em relação à distribuição comercial (através de copyright, por exemplo), eles podem vender músicas ao preço que bem entenderem, até zero ou, como fizeram, aceitar qualquer valor que os consumidores ofereçam. É um uso legitimo de suas propriedades. Como se pode perceber o mesmo vale para cooperativas, ONGs, trabalhos voluntários. Se um grupo de cinco trabalhadores resolve, com seus ativos, fundar uma empresa onde os cinco são donos e colocam como regra que cada novo admitido também passa a ser dono, está apenas fazendo o uso considerado mais adequado de suas propriedades. Nada pode ser dito de um ponto de vista liberal contra tal ação. No entanto, geralmente, cooperativas são vistas como “iniciativa socialista”. O mesmo ocorre com a questão da caridade e de uma suposta obrigação moral do rico ajudar o pobre. A versão mais famosa desse erro é a já conhecida tese de que “Jesus Cristo seria o primeiro socialista”, muito defendida por socialistas cristãos da teologia da libertação. O erro fundamental é o mesmo: caridade é um ato voluntário, um uso adequado, do ponto de vista do proprietário, dos seus bens.

Tanto o erro de classificação no caso da venda exótica do Radiohead quanto os erros em relação a cooperativas, caridade seriam inofensivos se eles não levassem a uma conseqüência nefasta: a de se tratar como igualmente legítimos atos voluntários e atos coercitivos que visam o mesmo fim. Ato de caridade passa a ser equiparável eticamente a distribuição de renda realizada pelo governo. Ter acesso a discos de graça porque o ofertante assim quis passa a ser equivalente a obrigar outros a financiarem acesso a discos de graça. Construir cooperativas se torna igual a estatizar ou desapropriar fabricas para criação de cooperativas. Se os primeiros são legítimos, os segundos também passam a ser porque visam o mesmo fim. Nada mais errado. A ilegitimidade das ações estatais distributivas, das regulações de mercado que tanto agradam os socialistas não está no fim que pretendem, está no meio usado: a coerção, a invasão de propriedade. Imaginem que, por exemplo, o dono da GM tenha um surto de “bondade” e decida pagar aos seus funcionários um salário muito maior que o de mercado. Aumentar salário de operário é uma bandeira geralmente associada aos socialistas, mas um liberal teria algum motivo ético para reprovar o surto de bondade do dono da GM? A resposta é não. O dono da GM faz com seus bens o que bem entender e isso inclui fazer “caridade” para quem ele quiser. Algo completamente diferente é obrigar a GM a pagar maiores salários aos seus funcionários. As duas coisas levam ao mesmo resultado (pelo menos aparentemente), mas só o primeiro modo é condizente com princípios liberais porque não viola direito de propriedade algum.

A iniciativa do Radiohead apesar de agradar os “anti-mercadistas”, anticapitalistas, não tem nada de conflitante com os princípios que esse mesmo pessoal repudia nos seus ataques ao mercado e ao capitalismo. É tão somente o exercício do odiado direito de propriedade, base do sistema de mercado alvo predileto das criticas. No entanto a defesa da tese de que seria uma “rebelião anti-mercado” como muitos socialistas disseram ou apoiaram acaba contribuindo para a confusão ética que gera legitimidade para muitas ações de governos que se fossem mais bem analisadas seriam consideradas extremamente antiéticas. O exemplo clássico, como já foi dito, é a questão da caridade. Se caridade é algo bom e nobre, a distribuição estatal de renda também é. Essa transferência perversa de legitimidade é a principal conseqüência do erro envolvendo a classificação como anti-mercado da venda exótica do Radiohead. Seria igualmente legitimo o consumidor obter discos à preço zero porque os ofertantes por livre e espontânea vontade dão esses discos (ou seja, dentro dos princípios de mercado) ou porque alguém obriga outros a financiar discos à preço zero (princípios anti-mercado). Se obter discos à preço zero (discos aqui servindo como um termo para algo mais genérico como cultura) é uma bandeira socialista, não é a mesma coisa chegar a isso porque os produtores de tais bens assim o querem ou chegar à isso através da coerção. O liberal apóia o primeiro, mas repudia o segundo. O primeiro (como foi o caso do Radiohead) está completamente dentro dos mesmos princípios que originam e mantém os mercados, o segundo não. Isso ainda desconsiderando a hipótese de que tudo isso não passa de uma jogada de marketing para conquistar o apoio, digo, dinheiro, dos fãs que na sua maioria são “politizados” e entusiastas de práticas como essa. Se esse for o caso, bem, nem as gigantescas e malvadas gravadoras tiveram tão maquiavélica idéia.

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MensagemAssunto: Re: Radiohead, Caridade e Liberalismo   Qui Mar 29, 2012 7:37 pm

A crítica do autor se funda na questão da autonomia da vontade, por acreditar que fazer um ato de caridade, ou até mesmo a questão do esquema de venda do IR, seriam mera liberalidade daqueles que praticam o ato, e neste sentido, concordo. Porém, coloca os "socialistas"(tão atacados por ele no texto) como promovedores de atitudes arbitrárias e coercitivas em nome de um "bem maior". Um esteriótipo quase tão óbvio quanto o que ele destaca ao dizer que os marxistas associam a figura dos burgueses àquilo que é ruim. Quando fala que os meios utilizados para se adquirir esse fim se baseiam na coerção, esquece que a propriedade privada(tão defendida por ele) surge através da força bruta, dos cercamentos, da apropriação daquilo que era comum.

A ideia de que "Jesus era socialista" é uma falácia, que me parece agradar muito mais àqueles que defendem a economia de mercado do que a todos os outros. Até porque não existe religião mais capitalista do que a PROTESTANTE, a qual surgiu num contexto em que se rompe com a ideologia católica contrária a aferição de lucros por parte de uma classe emergente(burguesa) para eclodir numa religião que tinha como um dos dogmas a máxima de que "o trabalho dignifica o homem". Portanto, se a intenção era associar a figura máxima do cristianismo(símbolo de "caridade") à um esteriótipo socialista, acaba sendo um grande contra-senso.
Tem algo mais coercitivo que isto? Tem algo mais coercitivo do que o próprio Estado, fundado na ótica liberal de aparente proteção a liberdade, mas que gera desigualdade, violência e alienação? Embora a tentativa de implantação de um Estado socialista tenha falhado, por fundarem-se, como os regimes totalitaristas da época, numa visão política e social muito limitada, de negação à diversidade e limitação da individualidade, por outro lado, o regime capitalista peca ao levantar a bandeira da liberdade com tanto afinco, que esquece da coletividade e promove cada vez mais atitudes de desumanização, precarização e violação de direitos fundamentais como a saúde, a educação e a dignidade da pessoa humana. Peca ao proteger no seu cerne relações de trabalho tão desiguais como a terceirização, gerando um exército de trabalhadores sem direitos efetivamente assegurados pela legislação. Se O socialismo/comunismo não foi bom, tão ruim é o capitalismo com o agravante de estar coberto por um falso manto da democracia. Atitudes como a do Radiohead podem não ser a solução para a construção de uma cultura cada vez mais livre mas é um dedo cutucando a ferida da industria da música. E, agora, mais do que nunca, são questões que devem ser suscitadas tendo em vista a crescente tendência pela privatização de espaços dentro do cyberspace, pela limitação à cultura do compartilhamento e livre acesso a informação e entretenimento.
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