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 Cartas do Haiti

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MensagemAssunto: Cartas do Haiti   Seg Fev 01, 2010 10:16 pm

relatos da situação num país em luta pela sua soberania

por Eduardo Almeida [*]


1° Dia
"Estou em casa"

Na quarta-feira, dia 9, Eduardo Almeida desembarca no Haiti. Nesta carta, ele envia as suas primeiras impressões, mostrando uma situação distinta da que encontrou em 2007, na primeira viagem. Desta vez, o repúdio às tropas da ONU é evidente, e pode ser visto nas pichações nos muros.

Um velho avião a hélice desce no aeroporto de Porto Príncipe. Estou de volta ao Haiti, dois anos depois da primeira vez que estive aqui, com uma delegação da Conlutas.

Como negro, tenho um enorme orgulho da história haitiana. Aqui se deu a única revolução vitoriosa dos escravos de toda a história, que derrotou os exércitos de todas as potências coloniais da época, incluindo a Espanha, Inglaterra e França. O aeroporto se chama Toussaint Loverture, o grande líder da revolução, que derrotou as tropas de Napoleão.

No caminho do aeroporto para a cidade, o choque com a realidade atual: a miséria nas ruas e inúmeros quartéis da Minustah, a força de ocupação da ONU. O Haiti hoje é de novo uma colônia, vítima de uma ocupação militar, dirigida pelo exército brasileiro.

Fim de tarde em Porto Príncipe. Uma multidão caminha pelas calçadas invadindo as ruas. Homens apressados, mulheres com trouxas de roupas na cabeça. O povo negro vai se confundindo com a noite na cidade sem iluminação nas ruas.

Nesses dois anos muita coisa mudou. Naquela época, as tropas da Minustah eram vistas com simpatia. Vieram para cá mandadas por Bush em uma intervenção militar, mas capitalizavam as esperanças com a intervenção "humanitária" e a identidade cultural do povo haitiano com o brasileiro.

Converso com os companheiros de Batay Ouvriyé, uma organização ligada a todas as lutas sindicais e populares do país. Hoje o sentimento da população é de ódio em relação à ocupação militar.

Não houve nenhuma melhora social. Mas as tropas reprimem duramente as mobilizações. Entram nas favelas de Porto Príncipe atirando indiscriminadamente contra todos.

A polícia carioca entra nos morros atirando contra os "suspeitos", ou seja, todos os jovens negros. As tropas brasileiras no Haiti – como todas da Minustah – fazem o mesmo nos bairros pobres. E aqui todos são negros. Existem muitas denúncias de espancamentos e de estupros das mulheres haitianas. Pichações "Fora a minustah" surgem nos muros da cidade e são rapidamente apagadas.

O governo Lula está conseguindo impor um governo neoliberal no Brasil, enganando os trabalhadores, que pensam que têm um "aliado" no governo. A enganação da "missão humanitária" no Haiti é ainda maior. Os operários e a juventude brasileira precisam saber o que se passa no Haiti. Porque aqui, a farsa acabou.

Ando pelas ruas em Petión-ville, um bairro pobre daqui. As calçadas das ruas agora são ocupadas por vendedores ambulantes, como os camelôs do Brasil, que vendem de tudo. Nas ruas escuras, lanternas iluminam as mercadorias. Os rostos negros negociam, conversam, riem, falam alto.

O povo haitiano está rompendo com as tropas de ocupação. E eu me sinto cada vez mais em casa.

2° Dia
A classe operária haitiana começa a se mover

No segundo dia no país, Eduardo conversa com operários da capital, Porto Princípe, sobre os protestos de rua em defesa do aumento do salário mínimo, em agosto. Apesar da forte repressão e das demissões que se seguiram, percebe o orgulho no rosto de cada um.

Faz calor por aqui, mesmo no início do inverno como agora. As pessoas nas ruas usam camisetas, blusas e camisas de mangas curtas, seja de dia ou de noite. Não existe grande variação de temperatura entre o verão (33 graus) e o inverno (27). O povo haitiano não tem roupas diferentes para uma estação ou outra.

Estou em Belair, um dos bairros pobres de Porto Príncipe. Cinco operários e duas operárias da organização Batay Ouvriyé (Batalha Operária) me descrevem a grande greve operária de agosto. Foram golpeados pela polícia ou pela Minustah, alguns foram presos, todos estão ameaçados de demissão ou já foram demitidos. Mas falam com orgulho da greve. E têm razão.

Primeiro contaram como o salário mínimo no Haiti era no primeiro semestre deste ano de 75 gourdes por dia, mais ou menos R$ 70 mensais [€26/mês], quase sete vezes menor que o brasileiro. É bom lembrar que os preços das mercadorias aqui são semelhantes aos do Brasil.

As grandes empresas têxteis norte-americanas produzem aqui a um preço baratíssimo (salários menores que os chineses), com custos de transporte muito pequenos (o Haiti é praticamente na costa dos EUA). Empresas como a Nike, Wrangler e Levis confeccionam seus produtos no Haiti. Neste momento já existem 25 mil operários têxteis, e os planos de construir cinco novas zonas francas podem elevar este número em seis anos para 400 ou 500 mil. Para discutir este plano, esteve no Haiti recentemente o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, com 150 empresários. Do Brasil esteve também uma delegação de doze empresários, incluindo um representante de José Alencar, vice-presidente do Brasil e dono da Coteminas, uma grande empresa têxtil.

Enquanto os operários falam, lembro que um dos motivos centrais para que a revolução haitiana de 1804 fosse vitoriosa foi que sua base social era de um tipo diferente de escravos. O Haiti era a mais rica das colônias, e produzia açúcar para o mercado mundial em grandes plantações. Os escravos eram concentrados em grandes fazendas, se aproximando à condição do proletariado agrícola. Isso lhes deu uma consciência coletiva, uma forma de agir e combater que foi decisiva para a vitória. Agora, o imperialismo está repetindo a dose, com a indústria têxtil. Pode acabar tendo a mesma resposta.

O motivo do orgulho dos operários de Batay Ouvriyé é que neste ano, a capital, Porto Príncipe, viveu uma grande luta pela elevação do salário mínimo. Um exercício em grande escala da moderna classe operária haitiana.

A reivindicação era de 200 gourdes por dia, algo próximo a R$ 190 por mês [€71/mês]. As mobilizações começaram em maio, com Batay Ouvriyé organizando junto com outros grupos protestos junto ao parlamento, que depois de muita pressão, votou em julho pelo reajuste. Mas o presidente Préval, atendendo às pressões das multinacionais, vetou o reajuste para a indústria têxtil, só aceitando os 200 gourdes para os demais ramos da produção. Para os têxteis, permitiu somente 125 gourdes, mais ou menos R$ 120 por mês.

As mobilizações se radicalizaram, agora contra Préval. As fábricas têxteis da zona industrial pararam todas, se mantendo em greve por duas semanas. A patronal deixou de pagar os salários (que são pagos aqui todas as semanas), para estrangular a mobilização pela fome. Houve quebra de escritórios e mesas dos gerentes.

Dos 25 mil em greve, dez a quinze mil operários faziam manifestações diárias que percorriam a cidade, saindo da zona industrial e indo até o parlamento ou até o palácio presidencial. Pelas ruas, eles gritavam "Abaixo Préval", "Préval, capacho dos patrões", "Abaixo a Minustah". Como é tradição aqui, levavam galhos de árvores nas mãos que sacudiam com força enquanto marchavam. No caminho, passavam pelos bairros pobres da capital. A população vinha lhes dar água ou simplesmente aplaudir.

As manifestações tinham de enfrentar a repressão da polícia e da Minustah. Muitas vezes se dispersavam e reagrupavam logo depois. Uma vez viraram um carro da ONU, obrigando seus ocupantes a gritar "200 gourdes". Outra vez puseram para fugir uma brigada da Minustah em frente ao Parlamento.

A burguesia e Preval atacaram Batay Ouvriyé como responsável pela greve. Um dirigente da burguesia ameaçou processá-los pelas depredações dentro das fábricas. Nos bairros e nas fábricas os operários associavam Batay à luta pelos 200 gourdes.

Uma das operária me fala: "Foi a primeira vez na história daqui que a classe operária de uma categoria tão importante se moveu em conjunto, e com tanta força". Por duas semanas seguidas, a cidade foi sacudida por mobilizações cada vez mais radicalizadas. O apoio dos bairros pobres fechou o circuito. Na verdade uma fortíssima mobilização operária com apoio majoritário popular levou a uma crise política ao governo, ao parlamento e à ocupação militar.

Foi marcada então uma mobilização para 17 de agosto, em que pela primeira vez os bairros pobres não só apoiariam as passeatas, mas se somariam à mobilização. As organizações populares de Cité Soleil (a maior favela do Haiti), Belair, Solino se comprometeram a participar. Esse ato poderia parar toda a cidade, e dar um novo salto na mobilização.

Aí entrou em cena com força a Minustah, comandada pelas tropas brasileiras. A cidade foi toda ocupada militarmente, em particular as ruas de acesso à zona industrial e aos bairros pobres mais importantes. Foram proibidas todas as mobilizações. Durante uma semana, as fábricas ficaram paradas e a cidade semi-paralisada pela ocupação militar e a repressão. Muitos ativistas ficaram quinze a trinta dias presos.

Os operários gritavam em creole: "Si se pa t pou Minista nou ta gen jete Préval" (se não fosse pela Minustah, derubaríamos Préval).

No dia 19, o congresso voltou atrás e votou na imposição de Préval. Dizem que as empresas deram milhões de dólares aos parlamentares.

As fábricas voltaram a funcionar uma semana depois, com policiais armados em seu interior, que impediam qualquer ação e resistência. Cansados, sem salários e frente a uma repressão brutal, os operários voltaram ao trabalho. Dois meses depois centenas de ativistas que estiveram à frente da luta foram demitidos das fábricas.

Transmito aos operários brasileiros, o recado de seus camaradas de classe haitianos: "A Minustah está aqui para nos fazer aceitar o inaceitável". O verdadeiro papel das tropas do governo Lula no Haiti é este: reprimir uma mobilização justa que reivindicava receber menos da metade do salário mínimo dos operários brasileiros. Não existe nada de humanitário na missão das tropas. Estão defendendo a exploração brutal dos haitianos, a serviço das multinacionais e da burguesia brasileira.

A classe operária haitiana foi à luta e foi derrotada. Mas tirou dessa mobilização conclusões muito importantes sobre o papel de Préval e da Minustah. Pixações contra o governo e as tropas inundaram os muros do país. Foi apenas o primeiro exercício como classe de uma longa batalha. O Haiti rebelde começa a tomar um rosto proletário.

3° Dia
Clinton, Soros... e o Haiti

Eduardo conta sobre o trabalho nas maquiladoras e os interesses norte-americanos no país. Por trás da visita de Clinton e das declarações dos Estados Unidos, o plano para aproveitar ainda mais a mão-de-obra miserável, para produzir as calças jeans famosas para os EUA.

O carro anda lentamente pelas ruas de Porto Príncipe. Estou voltando da entrevista com operários dirigentes da greve de agosto. Ainda soam em meus ouvidos suas palavras em creole, seus gestos decididos.

No caminho, Didier Dominique, de Batay Ouvriyé me leva até a Zona Industrial onde tudo começou. Muros altos separam uma área enorme das ruas. Ali está instalada a "indústria da agulha", como eles chamam, porque inclui a têxtil propriamente dita, além da confecção de bolas de futebol e tênis. É hora da saída dos trabalhadores e uma multidão invade as calçadas, se amontoam nos tap-taps, caminhonetes que fazem o transporte urbano aqui.

Logo depois, aparece outra área enorme, também cercada de muros altos, em que será construída uma zona franca. Uma placa enorme diz "Aqui está o futuro do país". Quem financia este projeto da zona franca é um grande expoente da burguesia mundial, nada menos que George Soros, o mega especulador.

O gerenciador de todo este plano de investimento na indústria é Bill Clinton. O ex- presidente dos EUA foi nomeado "enviado especial da ONU" para o Haiti. Já esteve no país por duas vezes só em 2009. Na verdade, ele é o posto avançado de uma operação econômica de importância para o imperialismo.

A lei Hope, votada em 2005 por três anos, torna as indústrias têxteis estabelecidas no Haiti livres de todos os impostos, tanto para a produção nesse país (inclusive do pagamento do terreno, luz e água), como para exportação para os EUA. A lei Hope 2, agora por dez anos, foi sancionada por Obama, que tem Hilary Clinton como secretária de Estado.

Não existe "filantropia" para o imperialismo, menos ainda para quadros do peso de George Soros e Bill Clinton. Existe uma operação de importância para o imperialismo com a indústria têxtil no Haiti, com os menores salários do continente e bem próximo dos EUA.

Lula foi subserviente a Bush, quando ele pediu que o Brasil chefiasse as tropas de ocupação no Haiti. Agora é um instrumento de Clinton, que hoje é o chefão no Haiti.

Vejo os operários saindo do trabalho na zona industrial. Lembro das palavras dos grevistas que me deram a entrevista contra a Minustah.

4° Dia
"Nas ruas de Le Cap"

Eduardo visita a segunda cidade do Haiti. Em uma região agrícola, apenas com a luz das estrelas, ele recorda a história do país, que foi palco da primeira revolução negra das Américas. E lembra do Rio de Janeiro, sua cidade natal, onde o povo negro está sendo morto nas favelas.

Passo pelas ruas estreitas de um bairro pobre em Le Cap, a segunda cidade do Haiti. Acabei de sair de uma sede de Batay Ouvryé (Batalha Operária) onde conversei com operários agrícolas da região. Aqui não há grandes indústrias. As grandes fazendas de café e laranja são as dominantes, e Batay Ouvryié dirige praticamente todos os sindicatos locais.

O céu limpo diminui a escuridão completa na favela sem iluminação. As estrelas conhecidas reforçam a sensação de familiaridade. Ando tranquilo, como não faria como estranho em uma favela nos morros de minha cidade natal, o Rio de Janeiro. A violência urbana no Haiti é incomparavelmente menor que no Brasil. É um povo simples, alegre, dócil, que me faz lembrar a frase de Trotsky: "As revoluções são impossíveis, até que se tornam inevitáveis".

Este povo se tornou o primeiro país livre do domínio colonial pela revolução de 1804 e derrubou uma das ditaduras mais sanguinárias da história (Duvalier).

Isso vale ser recordado nos dias de hoje. O imperialismo desenvolve uma ofensiva recolonizadora fortíssima, com todo o processo da globalização e os planos neocoloniais. Existem distintos estágios dessa recolonização, que incluem o controle de ramos das economias de nossos países, a privatização das estatais, abertura das fronteiras, etc. Em alguns países a situação é ainda mais grave, com a economia dolarizada (como no Equador) e outros já com tratados de livre comércio (como o Nafta do México, os TLCs da América Central).

Mas o Haiti já é diferente, voltou a ser uma colônia. O país tem um "acordo de livre comércio" com os EUA, através da Lei Hope, com toda a economia a serviço das multinacionais. O Haiti não tem forças armadas, substituídas pela Minustah, comandadas por tropas brasileiras. Tem um governo fantoche, manipulado grosseiramente pela embaixada ianque. Como se não bastasse, ainda tem sua costa e seu espaço aéreo entregues oficialmente ao controle da DEA (departamento anti-narcóticos dos EUA).

Não existe nada que justifique definir o Haiti hoje de forma distinta. O fato de existirem eleições não muda nada. Também existiam na Índia, quando ainda era colônia inglesa.

Como um país que fez uma revolução fantástica como o Haiti, chegou a essa situação? Depois de 1804, o país estava devastado pela guerra e teve de enfrentar o bloqueio comercial imperialista por 60 anos. Além disso, o governo Boyer reconheceu uma dívida à França, como pagamento pelas propriedades dos colonos pela independência. Esse foi, talvez, a primeira grande penalização de um país pela dívida externa: o país teve de dedicar dois terços de seu orçamento por mais de 40 anos para pagar uma dívida brutal. Com isso, deixou de ser independente para retornar a um status semi-colonial, e uma miséria permanente. Na verdade, o imperialismo nunca perdoou a ousadia da revolução e fez o país pagar duramente por esse "pecado".

O Haiti foi ocupado pelos EUA entre 1915 e 34, nas primeiras manifestações do novo imperialismo dominante. Toda sua história depois seja nas muitas ditaduras ou nos poucos governos eleitos, incluiu sempre a pressão e o controle do vizinho poderoso.

Até que em fevereiro de 2004, o imperialismo invadiu de novo o país. O presidente eleito (Aristides) foi preso em sua própria casa por tropas francesas e norte-americanas e deportado. Depois veio a Minustah, com a invasão legalizada pela ONU.

É uma ironia da história que o país que viveu a primeira revolução anti-colonial no século XIX, exatamente 200 anos depois se transforme na primeira colônia do século XXI. Outra ironia é que o exército que garante pela força a submissão colonial do Haiti seja comandado e composto por vários dos governos "progressistas" da América Latina como Lula, Evo Morales, Lugo, Kirchner, etc.

Enquanto ando pelas ruas de Le Cap, lembro das palavras de um operário de uma fazenda de café: "Aqui existe um ódio enorme contra a Minustah, mas ainda é diferente por serem brasileiros, argentinos, paraguaios. Se fossem norte-americanos já teria explodido tudo".

5° Dia
"Sobre misérias e misérias"

Com 70% de taxa de desemprego, o Haiti tem um salário até quatro vezes menor do que o do Brasil, na indústria textil, e quase nenhum direito trabalhista. Eduardo escreve sobre a "experiência" que o imperialismo está fazendo no país, com apoio brasileiro, e a comparação que poderá ser feita pelos patrões. As ameaças de levar a produção para a China, hoje tão comuns nos EUA, serão modificadas – lá e aqui – pelo país caribenho.

Ontem fui jantar num restaurante modesto de Le Cap. Uma televisão ligada, prendendo a atenção de todo mundo. Passava uma novela mexicana, daqueles dramalhões, dublada em francês. Os atores eram todos brancos, num país negro como o Haiti. Era demais.

Mas os haitianos me dizem que, assim mesmo, só não faz mais sucesso porque aqui não existem televisores. A TV no Brasil é um eletrodoméstico quase obrigatório mesmo nas casas mais humildes. Aqui é raríssimo. A miséria haitiana é de outra qualidade da conhecida pelos brasileiros.

O Brasil é um país em que existe muita pobreza e fome. O desemprego real atinge quase 20% nas grandes cidades, o emprego informal chega a 50% dos trabalhadores. Os salários são baixíssimos. Isso é utilizado pelas multinacionais como uma base para a transferência de fábricas dos países imperialistas para o Brasil. Agora, por exemplo, em plena crise das empresas automobilísticas, a GM vai investir no país cinco mil milhões de reais, a Ford dois mil milhões, a Volks seis mil milhões. Esse é um fator de pressão da burguesia sempre presente sobre os operários norte-americanos: "se vocês não aceitarem reduzir seus salários, vamos transferir a fábrica para o Brasil". Ou, o que é mais comum "para a China".

Mas no Haiti existe outro tipo de miséria. Já existem elementos claros de barbárie. O desemprego atinge em Porto Príncipe entre 70-80% da população. O salário mínimo da indústria têxtil (o setor de ponta) é quase quatro vezes menor que o brasileiro. O analfabetismo atinge 90% das pessoas. Ler e escrever não são necessários para a vida comum. A comunicação entre as pessoas já parte da realidade de que ninguém sabe ler. Os jornais não existem para o povo, se restringem aos hotéis e alguns pontos turísticos.

Não existe água e esgoto nas casas (a não ser nas casas da burguesia, hotéis e no comércio). Em algumas casas tem energia elétrica, que acaba todos os dias sem nenhum aviso. A maior parte dos habitantes não existe oficialmente, não tem nenhum documento. As pessoas retiram água dos poços artesianos, carregam para casa em baldes. Usam carvão para cozinhar. Quase não existe alcoolismo, mas por uma razão surpreendente: os haitianos não têm dinheiro nem para comprar uma cerveja. As pessoas andam longos períodos para não pegar um transporte, mesmo os baratíssimos e péssimos daqui.

O imperialismo está fazendo uma experiência. Está instalando aqui uma indústria de relativo baixo nível tecnológico, com um grau de exploração que se aproxima da barbárie. Um gigantesco exército industrial de reserva assegura a mão-de-obra baratíssima e a pressão sobre os que trabalham, para que não reivindiquem reajustes.

Nas fábricas existe uma organização do trabalho moderna, os módulos. Grupos de trabalhadores fazem, por exemplo, uma camisa, com cada um fazendo uma parte. Como ganham por tarefa, se impõe a disciplina do patrão pelos próprios trabalhadores, que cobram qualquer um que se atrase. Esse é o capitalismo moderno, com claros elementos de barbárie.

Novas zonas francas já estão planejadas. Existe uma grande área já reservada ao lado de Citè Soleil, para que os trabalhadores possam ir a pé para o trabalho. Se conseguirem implantar esse plano, terão uma nova referência de taxa de lucros. Poderão ameaçar os operários brasileiros, argentinos, paraguaios, bolivianos com "posso levar a fábrica para o Haiti".

Lula está cometendo um duplo crime aqui. Primeiro viola a soberania de um povo, com uma ocupação militar a serviço de Bush-Obama-Clinton. Em segundo lugar, participa da preparação de um ataque direto contra o nível de vida proletariado brasileiro.

A frase de Lenin "Não é livre um povo que oprime outro povo" ganha aqui um sentido duro e concreto.


6° Dia
"As laranjas amargas da Cointreau"

No sexto dia, Eduardo Almeida conversa com um grupo de 50 trabalhadores camponeses. Por seis meses, trabalham para a multinacional que produz o licor Cointreau e, nos outros meses, cultivam a terra como camponeses, tendo de, como servos, dar parte de sua produção. Ele escuta sobre as lutas que fizeram, as denúncias de prisões. Os trabalhadores tomam consciência de sua força e compartilham uma lição simples, mas a mais importante de todas.

San Rafael, duas horas de carro de Le Cap. Estamos em uma das passagens para a planície central do Haiti, uma zona usada pelos escravos na revolução como zona de refúgio. Hoje, San Rafael é centro de toda uma área de terras ocupadas por camponeses já há mais de vinte anos, com inúmeras lutas e prisões. Reúnem 50 mil pessoas, em cinco comunidades, sob a direção de Batay Ouvriyé (Batalha Operária). Nesse momento um de seus líderes, Elio Pierre, está preso há seis meses.

Sou recebido pela coordenação das cinco comunidades. A reunião é debaixo de uma grande árvore. Sombra garantida em um dia quente. Era para ter umas 20 pessoas, mas aos poucos vão se juntando os ativistas que estavam por ali. No final, estão sentados comigo quase 50 camponeses.

O primeiro fala com voz mansa como a luta pela terra começou junto com a revolução. Toussaint Loverture foi o general da independência, mas era também o representante das novas classes dominantes negras. A referência histórica de muitos por aqui era Moisi, um dos generais da libertação, o dirigente dos cimarrons , os quilombolas daqui, escravos fugidos que formavam comunas no interior. Moisi terminou sendo morto pelo próprio Toussaint, mas a luta seguiu desde então, até os dias de hoje.

Outro conta a luta deles em Guacimal em 2002. A Cointreau, multinacional francesa, planta aqui as laranjas amargas com que faz um de seus licores mais famosos. Os trabalhadores são operários por seis meses (colhendo as laranjas e semeando novamente), e camponeses pelos outros seis meses. Nesse segundo período, trabalham nas mesmas terras para sua própria subsistência. A multinacional impôs que lhe dessem a metade de sua produção como camponeses.

Houve então uma luta duríssima, que durou vários meses, com muitos presos. Em um dos enfrentamentos morreram dois trabalhadores, Ipharés Guerrier e Fransilyen Eximé. A multinacional só recuou quando os mesmos camponeses, já transformados em operários se recusaram a colher a laranja da safra seguinte. A vitória de Guacimal ajudou a organizar as outras ocupações, e até hoje os mortos são reverenciados.

Eles contam como os latifundiários estão se organizando de novo para tentar tomar suas terras de volta, agora ajudados pela Minustah. Existe um tom de revolta ancestral, secular nessas vozes. Quando um fala, outro apóia, terminam quase num coro. Deram sua vida pelas terras que ocupam, e vão seguir dando. Senti de perto o pulso da história, o hálito da revolução nesses camponeses simples, sentados em volta de uma velha árvore.

Me escutam atentamente quando lhes falo como Lula está ampliando o agronegócio no Brasil, e não faz nada pela reforma agrária. Como engana os trabalhadores brasileiros com o papel "humanitário" da Minustah. Ficaram alegres quando lhes propus uma luta comum contra a Minustah e o apoio à luta pela libertação de Elio Pierre.

No final, uma cena bem semelhante às do MST no Brasil. Vários deles trouxeram uma grande pedra para o meio da roda. Um de seus líderes pediu que um dos presentes tentasse erguer a pedra. Vários tentaram sem conseguir, por seu peso enorme. Sugeriu então que dois tentassem. Conseguiram, com muito esforço. Depois, quatro pessoas – eu inclusive – levantaram a pedra com facilidade.

O coordenador falou então para mostrar como só podiam ser vitoriosos se estivessem juntos, e que mesmo a prisão de Elio Pierre poderia ter sido evitada se a reação fosse mais forte. Não falava à toa. Eles já tiraram da prisão na marra vários de seus líderes. A lição serve para trabalhadores de distintos países, como o Brasil e Haiti.

7° Dia

Não nos pararão !

Último dia de Eduardo no país, ele visita a universidade pública, conversa com os estudantes. Leva na lembrança, as pichações, painéis e cartazes contra a Minustah.

Entro na universidade do Haiti. É a única universidade pública do país. Estou na Faculdade de Ciências Humanas, o centro mais importante do movimento estudantil do país.

A faculdade está toda pichada contra a Minustah e o governo. Em um grande painel está escrito "Não nos pararão!" em creóle. Achei as letras estranhas e me aproximei para ver: eram feitas com as bombas de gás lacrimogênio lançadas contras eles na última mobilização.

Bumba é um dos ativistas. Inteligente e informado, um típico ativista do movimento estudantil, como os brasileiros. Ele me conta como o movimento vem desde o primeiro de maio desse ano. Eles integraram o "comitê por um outro primeiro de maio" junto com Batay Ouvriyé, uma Central Sindical do Funcionalismo Público e outras organizações. Foi essa mobilização que deflagrou a luta pelo reajuste do salário mínimo para 200 gourdes. Uma delegação da Conlutas esteve presente nesse primeiro de maio, que foi reprimido pela polícia.

Os estudantes seguiram em maio, junho e julho, com mobilizações de apoio aos 200 gourdes. Faziam mobilizações que saíam das faculdades para as ruas e logo eram reprimidos. A cada repressão, saía uma mobilização maior.

A polícia vinha primeiro, com a Minustah logo depois, como força maior se necessário. Dizem que essa é a nova tática. A Minustah recompôs a polícia que estava em pedaços, para ficar em um segundo plano da repressão. Mas muitas e muitas vezes, a Minustah teve de enfrentar os estudantes. Mas eles estiveram em todos os momentos da luta pelos 200 gourdes, junto com os operários até a greve de agosto.

Já existia um conflito desde abril com os estudantes de medicina. Eles se levantaram contra o currículo privatizante, sem nenhuma preocupação com a medicina preventiva e saúde pública. Depois de muitos enfrentamentos, ocuparam a faculdade, e permaneceram aí por meses e meses. Em uma operação de guerra, com tropas especiais, a polícia e a Minustah desocuparam o prédio da Faculdade perto da meia noite, aproveitando os poucos estudantes presentes. Desde então, tentam retomar as aulas, mas os estudantes seguem em greve. Desde abril até hoje, quase nove meses de greve, apesar da direção da universidade, do governo e da Minustah.

O dia 18 de novembro é uma data tradicional no Haiti. Foi a última grande batalha da independência. Os estudantes escolheram este dia para uma manifestação contra a presença da Minustah. Saíram da Faculdade de Direitos Humanos, a mesma em que estou agora. A polícia já os esperava com gás lacrimogêneo, mas não conseguiu impedir a passeata.

Eles se reagruparam e seguiram adiante. Passaram em frente à faculdade de medicina ocupada pela polícia, tentaram reocupar, mas não conseguiram pela repressão. Seguiram então pelas ruas, encontraram um carro da Minustah e o viraram de rodas para cima. Depredaram mais dois carros da Minustah e um outro do estado.

São destes enfrentamentos as bombas de gás que formam o painel na entrada da faculdade. Nas mobilizações pelos 200 gourdes, foram mortos um estudante e um operário pela polícia e a Minustah. Foram cerca de 40 presos, dos quais 20 estudantes. Houve novos presos com o ato de 18 de novembro. Os últimos foram soltos há pouco mais de uma semana.

Betil James me recebe na Faculdade. É um dos coordenadores do movimento. Fala sempre de maneira bem articulada e segura. Me levam para uma sala, onde farei uma palestra. Saem para chamar os estudantes e voltam com umas 6ª pessoas. Ali estava boa parte dos que estiveram à frente das mobilizações e alguns dos presos.

O debate é muito interessante. Querem entender como Lula, que era dirigente sindical mudou tanto a ponto de mandar tropas para o Haiti. Explico que o governo brasileiro é das grandes empresas multinacionais, mas com a cara de um líder operário. E que é isso que o estado burguês faz, transformando burocratas em administradores do capitalismo. Que Lula engana os trabalhadores com seu plano econômico tanto como sobre a Minustah. Quando eu conto como o governo diz que a MInustah faz uma "ação humanitária" no Haiti, que ajuda a resolver os problemas de esgoto, saúde, etc, eles se riem.

Uma parte deles tem simpatias por Chavez e Castro, que não integram a Minustah. Mas eu lhes pergunto por que esses governos seguem apoiando Préval. Isso é um crime político, que indica o caráter desses governos. [1] Um deles me pergunta se não era correto que Chavez apoiasse Préval com o petróleo que manda, que possibilita uma economia para o governo de 200 milhões de dólares ao ano. Eu lhe pergunto quanto dinheiro Chavez enviou para o movimento que luta contra Préval, e ele me reconhece que nenhum. Assim o governo haitiano pode economizar dinheiro para usá-lo na repressão e para conseguir mais apoio.

Eles me perguntam como fazer para estreitar as relações com o movimento estudantil e operário brasileiro. Eu lhes falo da Anel e da Conlutas. Saiu da reunião a proposta de uma grande campanha contra a presença da Minustah e um compromisso de defesa comum dos presos que ocorrerem.

Desço as escadas da faculdade ao lado de Betil, Bumba e outros ativistas estudantis. Olho pela última vez para os muros da faculdade. Meu último dia no Haiti foi decorado com pichações, painéis e cartazes contra a Minustah.
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MensagemAssunto: Re: Cartas do Haiti   Sex Fev 05, 2010 9:42 pm

A IV Frota em ação: um porta-aviões chamado Haiti

por Raul Zibechi [*]

A reação dos Estados Unidos de militarizar a parte haitiana da ilha logo após o devastador terremoto de 12 de janeiro deve ser considerada dentro do contexto gerado a partir da crise financeira e da chegada de Barack Obama à presidência. As tendências de fundo já estavam presentes, mas a crise acelerou-as de um modo que lhes deu maior visibilidade. Trata-se da primeira intervenção de envergadura da IV Frota, restabelecida há pouco tempo.

Com a crise haitiana, a militarização das relações entre os EUA e a América Latina avança mais um passo, como parte da militarização de toda política externa de Washington. Deste modo, a superpotência em declínio tenta retardar o processo que a converterá em uma de outras seis ou sete potências no mundo. A intervenção é tão escancarada que o jornal oficial chinês Diário do Povo (de 21 de janeiro) pergunta se os EUA pretendem incorporar o Haiti como um Estado mais da União.

O jornal chinês cita uma análise da revista Time, onde se assegura que “o Haiti se converteu no 51° estado dos EUA ou, pelo menos, seu quintal”. Com efeito, em apenas uma semana o Pentágono mobilizou para a ilha um porta-aviões, 33 aviões de socorro e numerosos navios de guerra, além de 11 mil soldados. A Minustah, missão da ONU para a estabilização do Haiti, tem apenas 7 mil soldados. Segundo a Folha de São Paulo (20 de janeiro), os EUA substituíram o Brasil de seu lugar de direção da intervenção militar na ilha, já que, em poucas semanas, terá “doze vezes mais militares que o Brasil no Haiti”, chegando a 16 mil homens.

O mesmo Diário do Povo, em um artigo sobre o “efeito estadunidense” no Caribe, assegura que a intervenção militar deste país no Haiti terá influência em sua estratégia no Caribe e na América Latina, onde mantém uma importante confrontação com Cuba e Venezuela. Essa região é, para o jornal chinês, “a porta de entrada de seu quintal”, que os EUA buscam “controlar muito de perto” para “continuar ampliando seu raio de influência sobre o sul”.

Tudo isso não é muito novo. O importante é que se inscreve em uma escalada que iniciou com o golpe militar em Honduras e com os acordos com a Colômbia para a utilização de sete bases neste país. Se, a isso, somamos o uso das quatro bases que o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, cedeu a Washington em outubro, e as já existentes em Aruba e Curaçao (ilhas próximas a Venezuela pertencentes a Holanda), temos um total de 13 bases rodeando o processo bolivariano. Agora, além disso, consegue posicionar um enorme porta-aviões no meio do Caribe.

Segundo Ignácio Ramonet, no Le Monde Diplomatique de janeiro, “tudo anuncia uma agressão iminente”. Esse não parece ser o cenário mais provável, ainda que se possa concluir duas coisas: os EUA optaram pelo militarismo para mitigar seu declínio e necessitam do petróleo da Colômbia, Equador e, sobretudo, da Venezuela para afiançar sua situação hegemônica ou, pelo menos, diminuir a velocidade deste declínio. No entanto, as coisas não são tão simples.

Para o jornal francês, “a chave está em Caracas”. Sim e não. Sim porque, com efeito, 15% das importações de petróleo dos EUA provém da Colômbia, Venezuela e Equador, mesmo índice da quantidade importada do Oriente Médio. Além disso, a Venezuela caminha para converter-se na maior reserva de petróleo do planeta, assim que se confirmarem as reservas do Orinoco descobertas recentemente. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, seriam o dobro das da Arábia Saudita. Tudo isso seria suficiente para que Washington desejasse, como deseja, tirar Hugo Chávez do poder.

Ao meu modo de ver, o problema central para a hegemonia estadunidense no seu “quintal” é o Brasil. O petróleo é uma riqueza importante. Mas é preciso extraí-lo e transportá-lo, o que demanda investimentos, ou seja, estabilidade política. O Brasil já é uma potência global, é o segundo dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), ficando atrás em importância apenas da China. Dos dez maiores bancos do mundo, três são brasileiros (e cinco chineses). Nenhum destes dez bancos é dos EUA ou da Inglaterra. O Brasil tem a sexta reserva de urânio do mundo (com apenas 25% de seu território investigado) e estará entre as cinco maiores reservas de petróleo quando for concluída a prospecção da bacia de Santos. As multinacionais brasileiras figuram entre as maiores do mundo. A Vale do Rio Doce é a segunda mineradora e a primeira em mineração de ferro; a Petrobras é a quarta empresa petrolífera do mundo e a quinta empresa global por seu valor de mercado; a Embraer é a terceira empresa aeronáutica, atrás apenas da Boeing e da Airbus; o JBS Friboi é o primeiro frigorífico de carne de gado bovino do mundo; a Braskem é a oitava petroquímica do planeta. E poderíamos seguir com a lista.

Ao contrário da China, o Brasil é autosuficiente em matéria de energia e será um grande exportador. Sua maior vulnerabilidade, a militar, está em vias de ser superada graças à associação estratégica com a França. Na década que se inicia, o Brasil fabricará aviões caça de última geração, helicópteros de combate e submarinos graças à transferência de tecnologia pela França. Até 2020, se não antes, será a quinta economia do planeta. E tudo isso ocorre debaixo do nariz dos EUA.

O Brasil já controla boa parte do Produto Interno Bruto da Bolívia, Paraguai e Uruguai, tem uma presença muito firme na Argentina, da qual é um sócio estratégico, assim como no Equador e no Peru, que facilitam a saída para o Pacífico. Aí está o osso mais duro para a IV Frota. O Pentágono desenhou para o Brasil a mesma estratégia que aplica a China: gerar conflitos em suas fronteiras para impedir a expansão de sua influência: Coréia do Norte, Afeganistão, Paquistão, além da desestabilização da província de Xinjiang, de maioria muçulmana.

Na América do Sul, um rosário de instalações militares do Comando Sul rodeia o Brasil pela região andina e o sul. A pinça se fecha com o conflito Colômbia-Venezuela e Colômbia-Equador. Agora contará com o porta-aviões haitiano, deslocando desta ilha a importante presença brasileira à frente da Minustah. É uma estratégia de ferro, friamente calculada e rapidamente executada.

O problema que as nações e os povos da região enfrentam é que as catástrofes naturais serão uma moeda de troca corrente nas próximas décadas. Isso é apenas o começo. A IV Frota será o braço militar mais experimentado e melhor preparado para intervenções “humanitárias” em situações de emergência. O Haiti não será a exceção, mas sim o primeiro capítulo de uma nova série pautada pelo posicionamento militar dos EUA em toda a região. Dito de outro modo: nós, latino-americanos, corremos sério perigo e já é hora de nos darmos conta disso.

[*] Jornalista, uruguaio.

A versão em português encontra-se em www.cartamaior.com.br . Tradução de Katarina Peixoto
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