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 Impressões sobre o valor da arte

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Radiohead Brasil
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MensagemAssunto: Impressões sobre o valor da arte   Seg Mar 01, 2010 9:28 am

TEXTO>http://cadernoderetratos.blogspot.com/2010/02/impressoes-sobre-o-valor-da-arte.html




Colhendo algumas opiniões, críticas e fotos dos shows do Radiohead no festival Just a Fest, acabei me deparando com uma polêmica um pouco mais antiga e que tem como objeto o modo como a banda britânica lançou seu último álbum, In Rainbows. Para os que se não lembram, em outubro de 2007 a banda disponibilizou as faixas do álbum para download e cada pessoa escolhia o quanto pagar por elas – os que quiseram, baixaram as músicas totalmente de graça.

Se olharmos ao nosso redor, essa tentativa do quinteto não parece muito original. Basta observarmos o trabalho de bandas e artistas independentes; de poetas, companhias de teatro e músicos das esquinas, a prática do “passar o chapéu” é velha conhecida, e não apenas como solução à falta de incentivo à arte nos lados subdesenvolvidos do globo. A novidade, no caso, é a prática ser adotada por uma grande banda, com milhões e milhões de discos vendidos, e numa atitude manifesta de enfrentamento às grandes gravadoras. Essa atitude de coragem não poderia ter vindo senão de uma banda com as inquietações e coerência que marcam o desenvolvimento musical do Radiohead.

Mas a polêmica a que me referi toma a iniciativa em outro sentido. Em uma entrevista, Robert Smith, vocalista do The Cure, qualificou como idiota a tentativa. Suas críticas argumentam que o valor da arte não deve ser definido pelos consumidores, pois isto seria considerar sem valor a própria produção artística – e, seguindo esse espírito, submeter a arte de modo completo à lógica do consumo: “Se eu colocar um preço na minha música, e ninguém estiver preparado para pagá-lo, o problema é meu. Mas a idéia de que o valor possa ser criado pelo consumidor é um plano idiota, não pode funcionar”.

O cerne do argumento é que o valor da arte não deve ser definido na esfera da circulação, mas no âmbito de sua produção. O próprio artista deve definir o que se deve pagar por seu trabalho. “Eu discordo violentamente da experiência do Radiohead, pela qual os fãs podiam pagar o quanto quisessem pelo disco. Você não pode permitir que outras pessoas coloquem o preço no que você faz. Caso contrário, você não estaria considerando que o que você faz tenha realmente algum valor. É completamente sem sentido”.

A crítica é bastante interessante e, se está correta, deveria nos fazer revisar totalmente os primeiros parágrafos do texto. Como seus argumentos encerram questões que deveriam fazer pensar a todos os que pretendem fugir ao controle do sistema sobre a produção artística, aceitemos o seu desafio e olhemos para tudo isso segundo sua perspectiva.

Analisado de forma inversa, o que é negativo no argumento de Smith mostra – talvez parcialmente, mas substancialmente – sua concepção de arte e de trabalho artístico. Para ele, o trabalho do artista não se deve basear no gosto dos consumidores. Deve ser independente, talvez apoiado nas inquietações e tendências subjetivas do artista. Este deve ser a medida de sua própria obra e, ao que parece, deve valorizá-la segundo seu próprio critério. Se o consumidor não estiver disposto a arcar com o preço que o artista pensa valer sua obra, o problema é do consumidor, que irá se privar do objeto artístico, e do artista, que deverá procurar meios outros para pagar suas contas. De qualquer modo, o que interessa é que a arte não pode estar submetida aos consumidores e ao valor financeiro que estes livremente definirem.

Nesses termos o argumento parece irrepreensível. Todavia, essa visão peca, antes, por sua ingenuidade e ignorância da força corporativa das grandes gravadoras – sem falar nas leis férreas e irracionais da economia de mercado. Se o valor da arte não deve ser definido na esfera da circulação, mas no âmbito de sua produção, o artista deveria ser livre o bastante para definir o quanto acha que os consumidores deveriam pagar por ela. Fico me perguntando se a gravadora do The Cure nunca se intrometeu ou definiu os valores que deveriam ser pagos pelos discos da banda? Seria mesmo o próprio Robert Smith junto com seus pares que decidem o valor a ser pago pelo sublime direito à audição de sua banda? Ou será que para Smith é legítimo que para além dos artistas, entre os que devem definir o valor da arte estejam também os empresários e administradores das gravadoras?

Penso que esta seja uma preocupação importante, porque, em tempos de domínio da indústria cultural, não são os artistas que definem o preço dos bens culturais produzidos, mas o sistema completo dessa indústria e as grandes corporações capitalistas a que servem – ademais e infelizmente, temos de reconhecer que não são apenas os preços dessas produções que são definidos pela indústria cultural, mas também a forma e o conteúdo desses bens.

Smith poderia replicar e se defender argumentando que o valor dos discos é definido pelo artista ao vender os direitos das canções às gravadoras. Também não duvido que encontre casos de negociação entre gravadora e banda sobre o preço dos discos a ser cobrado dos consumidores. Como advogado do diabo e de si mesmo, ele poderia buscar redenção nesses casos que, se analisados detidamente, seriam mais provas irrefutáveis para sua condenação. Deixando de lado, todavia, os malabarismos e mediações que possa estabelecer, bem como a coletânea de casos que possa citar, sejamos pacientes e afastemos por hora essa suspeita de uma ingenuidade má-intecionada que o conjunto de seus argumentos parece denunciar. Vamos mais fundo, porque o problema central está mais além.

Mas sigamos lentos, porque atrás das belas frases em defesa do valor da arte existe horror e barbarismo. Ah! Pobre Smith, tão preocupado estava em não desvalorizar sua arte vendendo-a a preços módicos que o seu déficit bancário, certamente causado pelo senso de economia mesquinho de seus fãs, acabou fazendo-o esquecer que o valor da arte não é determinado financeiramente. Preço só é parâmetro para valor de produções culturais nos catálogos das grandes empresas e lojas de departamentos. Mas se prestarmos atenção a seus argumentos, para Smith, o valor da arte não quer dizer senão isso: o quanto seus fãs vão pagar e, mais importante, o quanto ele vai receber pela venda de sua bela voz aprisionada em compact disks. Seu pressuposto é o de que a arte só tem valor se é bem remunerada.

O vocalista do The Cure confunde aquilo que, para os que ainda lutam pela emancipação da arte e do ser humano, estão em esferas antagônicas e conflitantes, cujos domínios devem ser mantidos tanto quanto possível separados. O valor de uma obra artística não tem relação alguma com o preço que se cobra por ela. Este é determinado no âmbito do interesse capitalista de lucro – no caso, lucro das grandes corporações de mídia –, já o outro só pode ser determinado pelo próprio universo da arte, compreendido enquanto domínio autônomo da vida: sendo assim, é, sobretudo, uma questão de estética – em um sentido mais amplo do termo, não restrito apenas às relações entre forma e conteúdo da obra.

Quando mistura essas duas determinações, o que Smith confunde e admite é imperdoável: um meio de conhecimento e antevisão da realidade é substituído por novas armas a serviço da ordem positivista e capitalista da sociedade. Confusas a avaliação de uma produção cultural e o preço que se cobra por ela, o valor que o mercado determina que tenha, a arte torna-se refém e cúmplice do sistema de dominação. O assumir essa lógica é aceitar os desenvolvimentos do controle da arte por determinações não artísticas, por agentes de cujo interesse na manutenção do sistema social depende sua própria posição hierárquica. E, assim, transformar-se em mais uma engrenagem de reprodução desse sistema. Não é casual que Smith se tenha colocado do mesmo lado da trincheira em que as grandes empresas midiáticas combatiam a tentativa do Radiohead.

Contudo, assumindo essa nossa argumentação, não salvamos por si mesma essa tentativa. Se o valor dos bens culturais não é função de seu preço de mercado ou da forma como são eles distribuídos, a tentativa desse quinteto britânico também não pode ser avaliada simplesmente por suas intenções de combater o domínio das multinacionais da cultura – boas intenções não garantem a qualidade artística dos bens culturais.

O que vem em salvação de sua atitude e de sua obra como um todo é a vinculação da estética musical do grupo com a alienação extrema da realidade social que marca o fim do século XX e início do século XXI. Esse novo álbum, como os anteriores, além da beleza musical tem uma dimensão crítica imanente que se expressa nas inovações formais e nas explosões agônicas dos sentimentos de angústia, desarranjo e solidão tipicamente modernos. Dessa forma, em toda obra da banda se encontra implícita a autoconsciência de um produto da indústria cultural que se quer superar e que se quer voltar contra o sistema de que faz parte. Por isso, sua afronta às grandes gravadoras não é mais um antagonismo falso, como o de tantos outros grupos musicais que fazem da rebeldia o carro-chefe da vendagem de seus discos e imagens, e que nada mais fazem do que oferecer produtos culturais a um determinado nicho de mercado. Da mesma forma, a música do Radiohead não está para além do sistema da indústria cultural e também corresponde às necessidades de consumo de um grupo cultural específico e elitizado – e, mesmo com essa forma de lançamento inovadora, garante muito lucro a esse sistema. Em verdade, com o domínio da indústria cultural isso é inevitável. Mas essa música é consciente disso e se constrói a partir dessas contradições ao trazê-las para o interior de si mesma, utilizando essa tensão como impulso de sua força estética.

E é essa postura consciente e crítica que permite vislumbrar saídas desse sistema totalitário, ao enfrentar a indústria cultural mesmo sabendo-se inevitavelmente utilizado e produto da mesma. Por isso, a tentativa do último álbum é importante. Trata-se de mais uma investida, uma ruptura que permite tão-somente enxergar para além dele, mesmo que sua dominação não cesse. Enquanto alguns movem os lucros das corporações midiáticas com seus acordes e tatuagens de protesto, e enquanto outros não têm receios morais em aceitar diretamente o sistema e por isso fazem música de olho apenas em suas contas bancárias, o Radiohead faz uma música que se sabe não independente, estética e socialmente. Acompanha o destino das consciências automatizadas e alienadas para despertá-las e, assim, vislumbrar com elas uma saída – que não podem seguir. Não há como não pretender, então, que os estranhos sons que surgem daqueles instrumentos e os ganidos ruidosos de Thom Yorke não sejam senão os bramidos de desalento e de esperança quase impotente contra nossa própria condição.
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MensagemAssunto: Re: Impressões sobre o valor da arte   Ter Mar 02, 2010 12:43 am

Então Leno, vale a discussão! O que o Robert Smith disse teria coerência, fora isso que vc colocou, as gravadoras dizem o preço do seu disco, então, não é o artista valorizando sua arte, não é? Tá muito bem colocado isso. Depois todo esse reboliço veio da indignação dos próprios artistas com o ganho desigual das gravadores , em proporção aos artístas,o custo final do Cd era mais de 10 x o que o artísta ganhava pela "arte".

A Rh disse que foi idéia do produtor, a pergunta se me lembro era "quanto vc acha que vale?". E a pergunta era de verdade, o Thom disse naquele programa, em Copenhagen, que viveu a semana de maior ansiedade da vida dele, antes deles lançarem o IR. Aqui no Brasil ele disse em entrevistas "só apostamos nessa proposta pq sabíamos que era um bom disco" Era contundente a pergunta, lembro que fiquei encafifada "quanto realmente vale a arte?" é bem mais abrangente do que vários artístas tentaram se opor. Eu msm não sabendo responder, lembro que na época, fui a uma loja de Cd, ví o preço do Zeitgeist (Smashing Pumpkins), é uma banda que curto bastante, estava estreando tbm o disco, passei o msm valor pra libras na intenção de pagar o msm, acabei fazendo outra coisa, mas o que quero dizer, aquele era o valor de mercado que atribui pra o disco da RH, não para a arte, essa pra mim é impagavél. A inspiração involuntária de artístas, o tempo dispendido na produção, os acordes trabalhados por horas, não tem a ver com a "mais valia", produto, objeto e trabalhador, é outra relação. Então, ninguém paga o arte, paga o produto e dele, o artísta se mantém! É isso que acho.

Agora, não dá pra cair no equívoco de achar que se paga só por aquilo que o satisfaz ou que vc gosta, pode se ouvir antes, ver se gosta ou não, né? Ninguém vai ao supermercado experimenta o iogurte, o toma inteiro depois diz "não vou pagar, não gostei", mercadoria, produto é tudo igual, o cara da fábrica de iogurte sobrevive do msm capital que mantém o artista, então, acho que tem que ser pago sim!

Sempre que se toca nesse assunto eu penso em Van Gogh, morreu na miséria, em troca de favores, sem nunca vender um quadro, hunft.
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MensagemAssunto: Re: Impressões sobre o valor da arte   Qua Mar 03, 2010 10:06 am

Sem dúvida Ruth o argumento do Robert Smith é hipocrita mas é argumentativo.

Sem dúvida que há arte não pode ter valor algum, é impagável seus elementos e suas motivações para o artista. Mas é nesse ponto mesmo que a banda tocou. A banda não jogou pra nós a responsabilidade de "definir" o valor de sua arte, pelo contrário, proporam uma discussão sobre o marcado da arte nos dias atuais. E ponto, afasta pra mim, qualquer possibilidade de jogada de marketig por parte deles, oq está ocultamente questionado pelo Robert Smith nas entrelinhas.

Arte é um valor indefinivel. Mas a partir do momento que passa a transitar como "produto" para determinada classse ou minoria, ela passa a se adaptar as condições impostas...por quem? é esse o X da questão colocada na idéia do IR.

Oq pra mim sempre foi mais do relevante doq colocar o disco na internet (algo q muitas artistas independentes já fazem) foi trazer a discussão para a esfera do conceito de arte de marcado e a posição do artista em relaçao a isso.

Essa posição não compreendida por gente como Robert Smith entre outros.
Nada mais natural, em se tratando de uma banda anos a frente do seu tempo como a Radiohead.
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MensagemAssunto: Re: Impressões sobre o valor da arte   Qua Mar 03, 2010 7:58 pm

Dá impressão que alguns artístas se sentiram intimidados com a atitude da RH. É como se alguém tivesse dito "de agora em diante vc vão ter que fazer o msm". Foram tantas represálias, tantos defesas de posições, sem que a banda tivesse feito ataque nenhum aos artistas, apenas um ato que pra mim, foi só briga com a indústria fonográfica por não repassar os valores pelas mídias virtuais. Pra bom entendedor ficor claro "o valor dos CDs são superfaturados pela indústria, qto vcs acham que vale, então?"

Foi assim que o Thom explicou na entrevista com o David Byrne. Acho que nem a banda esperava tamanha repercussão pra coisa toda, acho que não dimensionaram tudo. Claro, a discussão foi colocada, já não era se em tempo, demorou, e só uma banda que reflete tão bem as questões do seu tempo poderia fazê-lo, pra mim, foi por acidente, mas em muito boa hora. Agora o Ed ficou com a "cruz" da defesa da questão, nunca vi falarem tanta "bollocks" como ele msm colocou. No fundo os artístas vão ter que rever a relação com seus fãs, e não fãs tbm, a indústria idem, e os fans tbm!
Se acho que a arte não pode ser "de graça" numa relação capitalista, alguns artístas vão ter que rever a coisa toda de ficar em casa só ganhando com a super arrecadação da indústria, se eles não levavam parcela maior, levavam o que poucos brigaram contra, a hora que alguém o faz, eles pulam do sofá? Tem banda que tem muito com o que se preocupar sim, especialmente essas produzidas em laboratório, que são só gravação em estúdio, toda produção efeitos e tal, não tocam ou cantam nada, rs, esse caras tem que ficar muitos preocupadas, não é o caso do The Cure, eu curto, o Robert Smith fez uma colocação "hipócrita" e infeliz msm!
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